manifesto da vida turista

Os horários e a loucura do dia-a-dia não servem de desculpa pra não ver a vida como um turista. O cansaço, o stress e a rotina são inerentes à atividade. Eles moram em você. E mesmo viajando pro outro lado do planeta vão continuar guiando a sua visão de mundo, se você não se dispuser a enxergá-lo como turista.

O prazo mais difícil de cumprir é o do fim das férias. Organizar uma viagem pode estar entre as atividades mais estressantes se você não tomar cuidado, concorrendo com estudar para uma prova ou esperar o resultado do vestibular.

E não é de roteiros, reservas e city tours que é feita a vida turista.

Levar uma vida turista é saber que malas podem se perder pelo caminho, o tempo às vezes vai fechar e algumas rotas vão ter que ser alteradas por isso. O mundo vai parecer um lugar injusto e você vai se desiludir outras tantas vezes com um destino que esperava que fosse fantástico. Pra depois perceber que são os contratempos que te ensinam a se organizar melhor pra próxima aventura, e que é deles que são feitas as melhores histórias.

É, ao acordar, decidir em qual parte do dia você vai tirar férias. Se vai se transportar pra outro continente provando uma comida diferente, ou pra dentro da vida de outra pessoa escutando sua história quando ela cruzar o seu caminho por acaso. Olhar pra todos os lados antes de atravessar, por segurança, mas também sempre antes de seguir em frente, por curiosidade.

Pra quem turista pela vida, todo amor é de verão. Daqueles que a gente anda bobo apaixonado pela praia, um frescor quentinho de brisa no rosto. Aperta forte a mão como pra segurar aquele amor pra sempre, e sabe que aquilo é muito mais importante do que saber se ele sobe a serra ou não.

Assim como na hora de planejar um roteiro, os turistas sabem que algumas pessoas são seus destinos, enquanto outras são só passagem. Uma baldeação entre um momento e outro da vida. Um encontro ao acaso. Uma surpresa grata ao dobrar uma esquina errada.

Mas o fato é que não se pode viver só de passagem pelas pessoas. E em certo momento temos que saber descobrir se nos deparamos com uma passagem ou novo destino. Sim, porque um turista de verdade recalcula a rota ao se deparar com um desses.

E existe um número finito de itens que se combinam para formar um destino. Mas há que se prestar atenção nos detalhes. Um sabor novo. Um cheiro que parece velho conhecido. O ritmo. Aquele sinal em um lugar escondidinho, desbravado por você. O acento diferente no final das frases. E quando o conjunto dessas coisas despertarem a vontade de aguçar o ouvido para aprender e entender uma língua estrangeira, é bem provável que tenha se deparado com uma pessoa destino.

Porque somos todos estrangeiros uns dos outros. Mesmo que o seu passaporte tente te provar o contrário, não se engane. Existe um mundo inteiro para ser navegado e explorado em qualquer que seja o outro alguém.

Ser turista é ter pra onde voltar depois de uma jornada. Mas não por isso perder o apetite de baldear por novos mares. Ter pra onde voltar, aliás, é o que diferencia um turista de alguém que vaga aleatório pelo mundo.

É saber que o que se leva na bagagem da ida é muito menos importante do que os souvenires que trazemos no coração na hora da volta. Que no fim das contas são essas as coisas que vão enchendo a mochila que a gente carrega sempre junto da gente, enquanto segue viajando.